DRA SIMONE PISTORI GERARDI - PSIQUIATRIA LONDRINA 
TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR
TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR

DEFINIÇÃO


       É uma doença que se caracteriza pela alternância de estados depressivos e eufóricos (maníacos).


       O Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) era denominado até bem pouco tempo de Psicose Maníaco Depressiva (PMD). Esse nome foi abandonado, porque este transtorno não apresenta necessariamente sintomas psicóticos, na verdade, na maioria das vezes esses sintomas não aparecem. Com a mudança de nome esse transtorno deixou de ser considerado uma perturbação psicótica para ser considerado uma perturbação afetiva.



       Muitas vezes o diagnóstico correto só é feito depois de muitos anos, sendo que alguns estudos mostram que a média para a realização do diagnóstico é de 10 a 13 anos. Isso ocorre geralmente por 2 motivos:


            1. Uma pessoa que tenha uma fase depressiva, recebe o diagnóstico de Transtorno Depressivo e 10 anos depois apresenta um episódio eufórico (maníaco) tem na verdade o TAB, mas até que a mania surgisse não era possível conhecer o diagnóstico verdadeiro.


            2. Frequentemente o paciente procura auxílio médico por estar triste, deprimido, e se durante a consulta não for investigado se já ocorreram períodos de mania, o diagnóstico também não será realizado corretamente, postergando assim o tratamento.


 


 


FASE MANÍACA ou EUFÓRICA


       O termo mania é popularmente entendido como tendência a fazer várias vezes a mesma coisa (mania de roer unhas, mania de limpeza), no entanto, mania em psiquiatria significa um estado exaltado de humor que será descrito adiante. Tipicamente leva 1 a 2 semanas para começar e quando não tratado pode durar meses.


       O estado de humor está elevado podendo isso significar uma alegria contagiante ou uma irritação agressiva (disforia). Junto a essa elevação encontram-se alguns outros sintomas como:


            1. Elevação da auto-estima e sentimentos de grandiosidade podendo chegar a manifestação delirante de grandeza (por exemplo, considero-se uma pessoa especial, dotada de poderes e capacidades únicas, telepáticas).


            2. Aumento da atividade motora, apresentando grande vigor físico e apesar disso uma diminuição da necessidade de sono. Os pacientes não conseguem ficar parados, sentados por mais do que alguns minutos ou relaxar.


            3. Forte pressão para falar ininterruptamente, as idéias correm rapidamente a ponto de não concluir o que começou e ficar sempre emendando uma idéia não concluída em outra sucessivamente (fuga de idéias). 


            4. Elevação da percepção de estímulos externos levando a distração constante mesmo com pequenos ou insignificantes acontecimentos alheios à conversa em andamento.


           5. Aumento do interesse e da atividade sexual. O comportamento sexual pode ficar excessivamente desinibido e em alguns casos pode se tornar promíscuo tendo numerosos parceiros num curto espaço de tempo e freqüentemente com riscos.


           6. Perda da consciência a respeito de sua própria condição patológica, tornando-se uma pessoa socialmente inconveniente e/ou insuportável.


          7. Envolvimento em atividades potencialmente perigosas sem manifestar preocupação com isso. O senso de perigo fica comprometido, e envolve-se em atividade que apresentam tanto risco para integridade física como patrimonial (compras, empréstimos, doações, etc).



          8. Mesmo estando alegre, explosões de raiva podem acontecer, geralmente provocadas por algum motivo externo, mas da mesma forma como aparece se desfaz. 


      Podem surgir sintomas psicóticos típicos da esquizofrenia o que não significa uma mudança de diagnóstico, mas mostra um quadro mais grave quando isso acontece.


 


 


FASE DEPRESSIVA


        É de certa forma o oposto da fase maníaca.


            1. O humor está depressivo, a auto-estima está baixa com sentimentos de inferioridade.


            2. Capacidade física comprometida, com a sensação de cansaço constante.


            3.  As idéias fluem com lentidão e dificuldade, a atenção é difícil de ser mantida e o interesse pelas coisas em geral é perdido bem como o prazer na realização daquilo que antes era agradável.


            4. O começo do dia (a manhã) costuma ser a pior parte do dia para os deprimidos porque eles sabem que terão um longo dia pela frente.


           5. Dificuldade na concentração e pensamentos inibidos, lentificados, faltam idéias ou demoram a ser compreendidas e assimiladas.


           6. Memória prejudicada.


           7. Os pensamentos costumam ser negativos, sempre em torno de morte ou doença.



          8. O apetite fica inibido e pode ter perda significativa de peso, no entanto, alguns pacientes apresentam aumento do apetite com ganho de peso.


          9. Nessa fase o sono também está diminuído, mas ao contrário da fase maníaca, não é um sono que satisfaça ou descanse, uma vez que o paciente acorda indisposto.


 


 


CARACTERÍSTICAS


         O início desse transtorno se dá em torno dos 20 a 30 anos de idade, mas pode começar mesmo após os 70 anos. O início pode ser tanto pela fase depressiva como pela fase maníaca, iniciando gradualmente ao longo de semanas, meses ou abruptamente em poucos dias, já com sintomas psicóticos o que muitas vezes confunde com síndromes psicóticas.


        Além dos quadros depressivos e maníacos, há também os quadros mistos (sintomas depressivos simultâneos aos maníacos) o que muitas vezes confunde os médicos retardando o diagnóstico da fase em atividade.


 


 


TIPOS


        Aceita-se a divisão do TAB em dois tipos: o tipo I e o tipo II.


        O Tipo I é a forma clássica em que o paciente apresenta os episódios de MANIA alternados com os depressivos. As fases maníacas não precisam necessariamente ser seguidas por fases depressivas, nem as depressivas por maníacas. Na prática observa-se muito mais uma tendência dos pacientes a fazerem várias crises de um tipo e poucas do outro, há pacientes bipolares que nunca fizeram fases depressivas e há deprimidos que só tiveram uma fase maníaca enquanto as depressivas foram numerosas.


        O Tipo II caracteriza-se por não apresentar episódios de mania, mas de HIPOMANIA com depressão. HIPOMANIA vem a ser um período onde o indivíduo apresenta os sintomas descritos na fase maníaca, mas em menor intensidade e duração.  Esse tipo é a forma mais frequente do TAB. Estudos recentes apontam 5 a 7 % da população com esse transtorno.


Outros tipos de TAB foram propostos por Akiskal, mas ainda não ganharam ampla aceitação pela comunidade psiquiátrica, dessa forma não será exposto nessa página.


 


 


ETIOLOGIA


       A causa propriamente dita é desconhecida, mas há fatores que influenciam ou que precipitem seu surgimento como:


          - Genética:  Em aproximadamente 80 a 90% dos casos os pacientes apresentam algum parente na família com transtorno afetivo.


          - Traumas, incidentes ou acontecimentos fortes como mudanças, troca de emprego, fim de casamento, morte de pessoa querida.


 


 


TRATAMENTO


        A medicação de escolha para o tratamento do TAB se denomina ESTABILIZADOR DE HUMOR.


        O Lítio é a medicação de primeira escolha, mas não é necessariamente a melhor para todos os casos. Freqüentemente é necessário utilizar outros estabilizadores do humor como a Carbamazepina, Oxcarbazepina, Ácido Valpróico, Lamotrigina e Topiramato, lembrando que essas medicações também são utilizadas como anticonvulsivantes, no entanto, com outra função.


       Nas fases mais intensas pode se usar, de forma temporária, os ANTIPSICÓTICOS (Haloperidol, Clorpromazina, Levomepromazina, Risperidona, Quetiapina, Ziprasidona, Olanzapina). Quando há sintomas psicóticos é quase obrigatório o uso de antipsicóticos.


       Nas depressões resistentes pode-se usar com muita cautela os ANTIDEPRESSIVOS. No entanto, há pesquisadores que condenam o uso de antidepressivo para qualquer circunstância nos pacientes bipolares em fase depressiva, por causa do risco da chamada "virada maníaca", que consiste na passagem da depressão diretamente para a exaltação num curto espaço de tempo.


        A psicoterapia também é fundamental no tratamento desse transtorno, uma vez que auxilia no manejo da vida diária, nas oscilações do humor, no melhor entendimento da doença (prevenção, como lidar com as recaídas) entre outros.